segunda-feira, junho 25, 2007


Sentiu-se um galho seco, espetado no ar. Quebradiço, coberto de cascas velhas. Talvez estivesse com sede, mas não havia água por ali perto. E sobretudo a certeza asfixiante de que se um homem a abraçasse naquele momento sentiria não só a doçura macia dos nervos, mas o sumo de limão ardendo sobre eles, o corpo como madeira próxima do fogo, vergada, estalante, seca. Não podia acalentar-se dizendo: isto é apenas uma pausa, a vida depois virá como uma onda de sangue, lavando-me, humedecendo-me a madeira crestada. Não podia enganar-se porque sabia que também estava vivendo e que aqueles momentos eram o auge de alguma coisa difícil, de uma experiência dolorosa que ela devia agradecer: quase como sentir o tempo fora de si mesma, abstraindo-se.
Clarice Lispector, Perto de Um Coração Selvagem

1 Comentários:

Blogger Sexhaler disse...

Eu gosto de acreditar que nós escolhemos os nossos próprios obstáculos, que as dificuldades que encontramos na vida são opções nossas. Isso faz-me acreditar que eu nunca escolheria para mim algo que não fosse capaz de superar.

Tenho-te seguido aqui no blog, já há bastante tempo em silêncio, eu sei, mas penso que há coisas que uma estranha não tem que dizer porque nada sabe na realidade.

Desta vez, revi-me de tal maneira no texto que escolheste que não fui capaz de manter o silêncio, porque também eu já me senti um galho seco e, de todas as vezes que acontece, a vida vem mesmo voltar a fazer de nós flores viçosas.

Beijo

12:43 da tarde  

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